quinta-feira, janeiro 10, 2008

Direitos Humanos e a necessidade de uma abordagem universal

Bruno Lindolfo Gomes
Universitário de Direito
e-mail: blindolfo@gmail.com

A Declaração Universal dos Direitos Humanos é quase sexagenária, no entanto, desde sua criação não houve consenso que pudesse promover sua práxis, o espargir de igualdade, seja civil, econômica, ou social. O único consenso formado até hoje data de sua criação: a idéia de que todo ser humano é detentor de tais direitos, sem distinção de cor, credo, opção sexual e comunhão política. As amarras que atam a socialização dos direitos humanos são exordiais de sua própria criação. Hoje, o maior problema dos direitos humanos é o próprio direito humano da forma como é visto e tratado, ou, mais precisamente, aqueles que se propõem a empunhar sua bandeira.

O ativismo pró direitos humanos virou seara de personalistas emergentes, ávidos por sucesso e projeção política, ou então terreno fértil para o proselitismo político social, onde digladiam-se comunas e liberais, que discutem desde a criação da moeda se a batuta que rege o mundo deve ser impelida pelo privilégio aos direitos civis constituídos ou à promoção social. A fragmentação dos grupos que lutam por tais direitos corrobora a tese de que o mal está na própria gênese - ao que parece, do próprio ser humano, por ser tão egocêntrico.

A Declaração Universal dos Direitos Humanos é extensa. Trata de salvaguardar o seu sujeito de toda e qualquer iniqüidade, violação de direitos e de toda forma de situações degradantes a que possa ser exposto. Na prática, o que se vê é um reducionismo boçal às prerrogativas de certos grupos ou situações, principalmente aquelas que no tal momento possam promover visibilidade política. O que ocorre na postulação prática desses ativistas é simplesmente desigualdade negativa. É interessante defender o meio ambiente, pois é assunto em voga; por conseguinte, traz visibilidade. O mesmo ocorre com o sistema carcerário e os presos que tornam o ativista visível de forma oposta, pois vai de encontro ao asco social pelos indivíduos marginalizados. Repulsa que faz todo sentido numa conjuntura de valores tão revolvidos, que fazem do policial torturador do filme herói da nação. Por outro lado, há uma tendência crescente de vitimização do bandido, trazendo, inclusive, a sensação de que a carta de Direitos Humanos poderia ser renomeada, sem perda de sentido, para Direitos do Cárcere.

O direito humano é heterogêneo, e não pode coexistir com o tendenciosismo do ativismo travestido, que, imbuído de escusos interesses políticos, promove um prosaico “escalonamento de direitos”. Direito devido é macula social, seja qual for a natureza de seu débito. A luta pelo direito como bem comum e universal deve primar pela indivisibilidade, pois não há hierarquia para aquele que tem expectativa de direito - para este, o direito mais importante do mundo é o seu.

Outro fator que inibe o desenvolvimento desta política de direitos é a falta de proatividade, falta iniciativa de promoção contínua de uma sociedade mais justa e digna, é um movimento baseado na reação, desde sua criação, movido por catástrofes ou violações aberrantes de direitos.

O caminho que leva à contemplação de um mundo mais humano e direito é longo, e não começamos nem mesmo a trilhá-lo, afinal, não garantimos o direito mais vital, aquele que em falta torna todos os outros inúteis e inexeqüíveis: a liberdade. Enganam-se os que acreditam que essa foi conquistada na alforria. A escravidão nos dias de hoje foi institucionalizada. Ledo engano, também, dos que acreditam que a liberdade é inerente e ínsita no processo democrático – “ora, porque votam, são livres”, diriam os democratas; esquecem que eleições são decididas pela trela da fome e o jugo da miséria, além, óbvio, de outras razões não tão altruístas sob aspecto sociológico.

O filme “Tráfico Humano” mostra o submundo do tráfico e exploração de mulheres e crianças, atividade extremamente lucrativa e que causa espanto sua ocorrência num mundo extremamente informatizado e cada dia menos intimista, afinal, há uma histeria pública por segurança, principalmente nos EUA. Ironicamente, os norte americanos são um dos maiores financiadores de tal tráfico, que com toda certeza conta com a aquiescência de outros grandes poderios financeiros no mundo. Essas crianças são originárias quase sempre de países pobres, e são vendidas pelos próprios pais. Os pais das crianças de países pobres, os mesmos que vendem seus filhos, são escravos modernos. Os mesmos países que exportam crianças são os preferidos de multinacionais que em busca de mão de obra miserável instalam suas fábricas e manufaturas, onde trabalham inclusive crianças, em troca de salários irrisórios e laborando em condições degradantes, bem como seus pais, os mesmos pais que as vendem imbuídos pela miséria e fome.

Outro filme que retrata a existência de escravos modernos sob as barbas libertárias americanas é o premiado e belíssimo Pão e Rosas, que trata dos transtornos de imigrantes ilegais mexicanos em solo americano. São absorvidos por empresas que terceirizam serviço de limpeza dos grandes prédios empresarias do país, sendo mão de obra barata, atrelados pelo medo de denúncia e deportação, tendo negados direitos trabalhistas básicos e entregues a esmo e fortúnio do destino.

Exemplos não faltam em âmbito nacional, ou no próprio quintal, Campos dos Goytacazes. Em 22 de novembro de 2007, a colunista Miriam Leitão de O Globo, detalha as condições desumanas a que foram encontrados empregados encarregados do corte de cana em Mato Grosso do Sul, o empresário responsável foi notificado pela terceira vez por tal fato, é deste sujeito a responsabilidade de uma das poucas usinas em funcionamento em nossa cidade, a usina Santa Cruz.

Preocupa a ocorrência de tal fato num país que sonha alto a respeito do etanol, o combustível do futuro, que ao que parece não fugirá da sina do desenvolvimento pela dor e exploração. Qualquer direito humano permanecerá sendo violado enquanto não houver a disposição de oportunidades iguais para todos, sem demagogias ou populismos assistenciais.

A luta por esses direitos deve ser universal, ou tornar-se-á fetichismo ideológico e eterna aspiração.

quarta-feira, outubro 24, 2007

Os estigmas dos políticos campistas

Prof. Vitor Augusto Longo Braz, em 23/10/2007

A nossa querida Campos dos Goytacazes é uma cidade aonde alguns de seus representantes políticos se estigmatizaram, de uma forma ou de outra, em sua passagem pelo poder. Segundo o dicionário da Língua Portuguesa, de autoria de Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, estigma é sinônimo de cicatriz, sinal e, estigmatizar é marcar com estigma, censurar, condenar.Pois bem, vamos a um breve passeio pela história política de Campos, começando por um passado, um tanto, quanto recente. Porém, é de bom alvitre que se diga que esses estigmas que serão colocados na conta dos políticos citados não é uma opinião pessoal deste blogueiro, mas uma constatação observada nas rodas de conversas políticas de um grande número de pessoas habitantes da cidade, principalmente os que acompanham a política local e nacional de forma mais atenta, ou seja, é o senso comum que dita os estigmas dos políticos que serão citados a seguir.

O ex-vice-prefeito de Campos, Lourival Martins Beda, teve o estigma de ser “O Médico dos Homens e das Almas”, pela sua benemerência no trato com a medicina e com os menos favorecidos sócio-economicamente.

O falecido deputado federal Alair Ferreira, tem o estigma de ser “O Realizador”, pelas importantes obras que trouxe para a sua cidade, podendo citar: a construção do dique do Rio Paraíba do Sul, a construção de uma ponte, e outras tantas obras.

O político Sebastião Campista, várias vezes candidato a cargos eletivos, porém sem sucesso nas urnas, ficou estigmatizado como o “Chicote do Povo”, por ser um advogado e radialista que defendia os interesses dos mais humildes nos tribunais.

O ex- prefeito, José Carlos Vieira Barbosa, o Zezé Barbosa, ficou estigmatizado pelo senso comum, como o “Prefeito das Pracinhas Públicas e dos meios fios pintados a cal”. Nada depreciativo, porém é um estigma que sugere a falta de ações mais concretas, no que diz respeito ao desenvolvimento e a realizações.

O ex–prefeito e ex–governador, Anthony Garotinho, se auto-estigmatizou como sendo um “Político Pobre, que só tem uma casa na Lapa”, assim mesmo, fruto de uma herança de família. É bem provável que ao se auto-estigmatizar dessa forma, ele buscou um gancho de marketing pessoal e político, que se diga de passagem, ele reforça até os momentos atuais, embora tenha ocupado cargos políticos executivos da mais alta importância no contexto de um campista.

O ex-prefeito Sérgio Mendes, por um bom tempo, ou melhor, até romper com seu criador o ex-governador Anthony Garotinho, teve o estigma de ser o “Boneco de Garotinho”. Esse estigma, talvez, se deva ao fato do ex- prefeito Sérgio Mendes ter sido eleito com o apoio político de Garotinho, sob o lema de “Sérgio Mendes é Garotinho de Novo”, e, durante um bom tempo ter governado Campos sob a orientação de seu criador.

O ex-vereador e ex-deputado estadual, pré-candidato a prefeito pelo PCB no próximo pleito, Paulo César Martins, teve seu estigma criado na sua luta pela emancipação de Guarús, ou seja é conhecido como o político que tenta separar a margem direita do Rio Paraíba do Sul da margem esquerda, dividindo Campos ao meio.O

O deputado estadual João Peixoto ficou estigmatizado por ser o defensor dos taxistas, uma vez que, esta era a sua labuta profissional chegando, inclusive, a ser presidente do sindicato de sua classe profissional.

O ex-vereador, ex- deputado federal e prefeito de Campos por um curtíssimo período, Carlos Alberto Campista, tem o estigma de ser o “Advogado dos Aposentados”.

O Deputado Federal e ex-prefeito, Arnaldo Vianna, segundo os mais entendidos em política de nossa cidade, é sem dúvidas, o político mais popular de Campos no momento atual. Seu estigma é de ser um político “Bondoso”, de um “Coração Grande”, não obstante, as graves denúncias que pesam contra ele e que tramitam nas esferas judiciais.

O ex-deputado Paulo Feijó, logo no início de sua carreira política, foi difamado por adversários políticos como tendo subtraído trilhos da extinta Rede Ferroviária Federal, onde exercia o cargo de engenheiro. O fato é que esse estigma acompanha o ex-deputado até aos dias atuais, mesmo com todo seu esforço em reverter à situação. Não é raro ouvir piadas sobre Paulo Feijó e os trilhos. Enquanto deputado federal, novamente seus adversários políticos o estigmatizaram como tendo sido um dos deputados federais que votaram contra os trabalhadores. A bem da verdade, os que acompanham a política mais de perto sabe que tal fato verdadeiramente não aconteceu, mas o calar do ex-deputado, diante das acusações inverídicas, fez com este rótulo lhe acompanhasse até hoje. Recentemente teve seu nome envolvido com a máfia das ambulâncias, ou escândalo das sanguessugas, o que o levou a se desfiliar do seu partido para evitar enfrentar o Conselho de Ética e uma provável expulsão do PSDB. Dessa forma, não há como negar esse seu novo estigma, o de “Sanguessuga”.

Rockfeller Felisberto de Lima, ex-vice-prefeito eleito pelo voto direto, ex-prefeito, ex-deputado estadual, ex-deputado federal, ex-senador suplente da república, ex-secretário de estado e, atualmente Secretário Municipal de Comércio, Indústria, Turismo e Tecnologia, tem o estigma de “Um homem Público de Mãos Limpas” e que quando foi prefeito de Campos, por um curto período e, diga-se de passagem com parcos recursos para administrar uma cidade do porte de Campos, deixou obras importantes, eternizadas com o passar tempo, podendo citar: A APOE, o Colégio Municipal 29 de Maio, o Palácio da Cultura, os Sandús e tantas outras obras de grande relevância.

Para que este artigo não se torne enfadonho vou parar por aqui. Porém, mais uma vez, reforço que estes rótulos que marcaram a carreira dos políticos citados neste texto, não se constitui em pensamento ou opinião própria deste blogueiro, mas do senso comum, influenciado maciçamente pelas mídias locais e de âmbito nacional.

segunda-feira, outubro 08, 2007

Rumo errado

Vitor Augusto Longo Braz*

O atletismo, esporte milenar e diversificado que agrega várias modalidades, podendo citar: corridas, saltos, arremessos e lançamentos. O atletismo é considerado o esporte “mãe”. Do atletismo, surgiram quase que a totalidade dos demais esportes, segundo historiadores. Segundo eles - os historiadores, as primeiras provas de competição registradas na história eram compostas de algumas das diversas modalidades do atletismo.

Na história das olimpíadas o atletismo configura-se como a grande atração, a grande expectativa, a estrela do evento. As esperanças em torno das auto-superações e quebra de recordes nas diversas modalidades dos esportes que compõe o atletismo são as que mais chama a atenção de todo o mundo.

O Brasil, em termos desportivos, começou a ganhar destaque e reconhecimento internacional, não só pelo futebol, mas também através de marcas alcançadas por atletas do atletismo. Vale lembrar: Ademar Ferreira, Joaquim Cruz, João do “Pulo”, entre outros tantos.

O atletismo, no tocante às corridas, principalmente, basta observar, é o esporte que mais atrai adeptos desfavorecidos sócio-economicamente. As nações africanas são as que mais se destacam em corridas de rua. A Nigéria, o Quênia e outros países africanos que são economicamente considerados miseráveis são os que mais ganham corridas de rua no mundo todo. No Brasil os corredores de rua são, da mesma forma, em sua grande maioria, desfavorecidos sociais e economicamente. Muitos não têm dinheiro para comprar um tênis apropriado. Lembram da nossa atleta, cortadora de cana, que ganhou a Corrida de “São Silvestre”, uma das mais importantes do mundo, descalça.

Em Campos essa realidade não é diferente. Os atletas de corrida de rua sofrem com o descaso e a falta de apoio do poder público, especificamente do gestor da pasta que tem a incumbência de incentivar e desenvolver esse esporte. Há pouco tempo atletas de ponta de Campos fizeram apelos e denúncias em um jornal local quanto à falta de apoio dado a eles, que elevam o nome de nossa cidade país afora e, de sobra, aproveitam para se aprimorarem. Coitados! A alegação sempre é a falta de verbas. Quando, quase sempre, se impõe aos solicitantes “mil” exigências para liberarem uma merreca: tem que ter associação, sindicado federação, etc. Mas, dinheiro para um comprar carro 0 Km, que segundo se noticiou em um jornal local, ao preço de R$ 38.000,00 (trinta e oito mil reais), para servir ao bem estar dos dirigentes, a verba aparece como num passe de mágica.

Como promotor de quase uma centena de competições de corrida de rua em Campos, São João da Barra e Macaé, considero-me com legitimidade para falar desse descaso. Afinal, dessas quase cem corridas de rua que promovi, tive muito pouco ou quase nenhum apoio da municipalidade. Felizmente, empresas de porte como o Banco Itaú e a Unimed tiveram a sensibilidade que a municipalidade não têm.

Aliás, faço uma simples pergunta aos dirigentes da FME: Onde em Campos se pratica salto em distância, salto em altura, arremesso de peso, salto com vara, arremesso de disco e outras modalidades do atletismo. Ah! Esqueci, não temos sequer uma pista de corrida e local para a prática do atletismo. Que vergonha eu sinto da minha cidade, tão rica e ao mesmo tempo tão atrasada no esporte.

Bem que os dirigentes do esporte em Campos poderiam assistir a Corrida Rústica de Macuco, cidade da Região Serrana de pequeno porte e arrecadação infinitamente inferior a nossa cidade. Lá acontece uma corrida a nível nacional com total apoio da municipalidade. Participam aproximadamente 1.000 (mil) atletas de todos os lugares do País, que promovem o Turismo e o Esporte, levando a reboque o desenvolvimento econômico. Ou então, poderiam visitar Nova Friburgo, que é considerado um Centro de Excelência em atletismo, principalmente Corrida de Rua.

Não estou acompanhando os Jogos Estudantis de Campos, ouço apenas, de forma massiva, das críticas quanto à organização, mas não tenho condições de afirmar isso, pois não estou acompanhando este evento. Gostaria apenas de saber se durante os Jogos Estudantis de Campos, acontecerá competições de saltos, arremessos e as diversas modalidades de corrida que compõe o atletismo e, por último aonde irão acontecer. Se for na pista do 56º Batalhão de Infantaria, que os organizadores tomem cuidados especiais para não lesionarem os competidores, pois a pista não é das melhores, para ser otimista.

Lembro-me da minha época de estudante secundarista. Existia todas essas modalidades do atletismo nos colégios. Posso citar: Liceu de Humanidades de Campos, Escola Técnica Federal de Campos, Centro Educacional N.S. Auxiliadora, Colégio São Salvador, etc. Acho que é viável à volta dessas diversas modalidades do atletismo que citei acima. Basta ter visão desportiva, ou buscar acessória competente, e o que é também fundamental, ter humildade para agregar profissionais que tem competência e história no esporte de Campos.

Fico imaginando se os dirigentes pensam em gerir o esporte como inclusão social, como poderosa ferramenta da educação e com oportunidades para todos. Penso que estão no RUMO ERRADO.

Prof. Vitor Augusto Longo Braz
Jornalista, Profissional de Educação Física, ex - Presidente da Associação dos Profissionais de Educação Física de Campos (1996 a 2000), ex-membro do 1º Conselho Regional de Educação Física instalado no Brasil, Mestre em Comunicação e Cultura pela UFRJ, Premiado em 01/09/03 com Discóbolo de bronze pelo ex- Presidente da República Fernando Henrique Cardoso pelos relevantes serviços prestados a Educação Física no Estado do Rio de Janeiro.

segunda-feira, setembro 24, 2007

Conversas do Boulevard

Adoro passar minhas horas livres pelo calçadão de Campos, ali pelo começo da Rua Sete de Setembro e Boulevard Francisco de Paula Carneiro, local que os mais antigos intitularam a “Rua do Homem em Pé”. Talvez tenha adquirido este hábito com meu pai, que entre um cafezinho e outro, encontrava com suas amizades e passavam momentos de prosa sobre diversos assuntos, quase sempre relacionados ao nosso município.

Nos dias atuais, mesmo com o avanço das novas tecnologias de comunicação e informação do mundo “glocal”, ou, talvez, em conseqüência disto, as afinidades humanas ficaram, cada vez mais, frias. A reorganização do tecido social do mundo contemporâneo, o corre-corre em busca de oportunidades e da própria sobrevivência, aliada a alta competitividade que caracteriza o mundo moderno e outros tantos fatores, levaram aos seres humanos a uma mudança de comportamento no que diz respeito às relações interpessoais.

Num passado, não tão distante, era comum e, ao meu ver, altamente profícuo, dedicarmos aos amigos e companheiros uma atenção afetuosa, e carinhosa. Conversar sobre assuntos como trabalho, família, política e outros diversos assuntos, faz com que o mundo se torne mais humanizado e as relações de amizade sejam fortalecidas.

Como tenho tido tempo, por conta de uma licença médica para um tratamento de saúde, tenho estado com certa constância pelo “calçadão” do centro de Campos. Lá, tenho reencontrado velhas amizades, que passam circulando, apressadamente, diga-se de passagem, porém nunca perco a oportunidade de conversar por alguns poucos minutos e dar um abraço carinhoso no amigo, o que mata por determinado tempo à saudade que sinto deles e que o mundo moderno impôs a sociedade contemporânea.

Nestes últimos tempos, especificamente nestes dois últimos meses, as conversas no “calçadão” não tem sido outra do que política. De certa forma, o pleito municipal do ano que vem já tomou conta do senso comum. E, dentro desse espectro, os diálogos giram em torno das estratégias políticas adotadas pelo ex - governador Antony Garotinho, tendo em vista a sucessão municipal.
E, apesar de se ouvir que Anthony Garotinho está em baixa eleitoralmente, é de se ressaltar que, quase que unanimemente, todos concordam que não se pode subestimá-lo politicamente, devido ao seu carisma, ao seu alto poder de comunicação e persuasão, a sua inteligência e, principalmente, a sua capacidade de armar estratégias no conceito político.

Garotinho tem usado com muita freqüência, assíduos ataques aos dois maiores “cabos eleitorais” de Campos, quais sejam o Deputado Federal Arnaldo Vianna e o Prefeito Alexandre Mocaiber (esse principalmente por deter o poder da “caneta”), que chegam as raias da insistência, para não dizer perseguição. Tem usado diariamente os meios de comunicação a que tem acesso para, além de atacar, promover um jornalismo investigativo, a cerca de possíveis irregularidades que aconteceram e/ou estão acontecendo na administração pública municipal.

Ele está tendo acesso e divulgando informações dificíeis de se conseguir e, aos olhos de uma grande parte da população, calamitosas sobre as duas personalidades citadas acima. Mas, não entro neste mérito. Só a justiça pode se pronunciar quanto a denuncias que estão sendo feitas por ele e pelos meios de comunicação a que tem acesso.

Mas, voltando ao assunto de sua determinação, sua sabedoria e sua qualidade de estrategista político, só para clarear a mente dos meus poucos leitores, há algumas semanas atrás as manchetes nos principais meios de comunicação, não só de Campos, mas de todo Brasil, davam conta da negociação envolvendo o PMDB fluminense, o qual é o presidente estadual, com o DEM, do Prefeito do Rio de Janeiro César Maia, (até bem pouco tempo seu arquiinimigo político). As matérias noticiaram um acordo político entre o PMDB e o DEM, tendo em vistas as eleições municipais de 2008.

Agora, mais uma “bomba” está para explodir em Campos. O que se tem dito e ouvido pelos freqüentadores anônimos do “calçadão” - que poderia até ser intitulado a “boca maldita” de Campos, é que Garotinho, com o aval de Fernando Henrique Cardoso, vai intervir no PSDB fluminense, aumentando o número de partidos que se alinharão com o PMDB fluminense, para as eleições municipais de 2008. E o candidato a prefeito da coligação partidária que está articulando, seria o atual Vice-Prefeito, Roberto Henriques. Será?

Com toda essa movimentação política que tem acometido Campos nos últimos dias, o senso comum, observado nas conversas e comentários pela “boca maldita” do centro, é de se concordar que não se pode, em momento algum, subestimar a sabedoria, inteligência e a estratégia política do ex-governador, Anthony Garotinho. Parece que ele respira política 24 horas por dia.

Prof. Vitor Augusto Longo Braz
Jornalista, profissional de Educação, mestre em Comunicação e Cultura pela UFRJ Física, presidente da Associação dos Profissionais de Educação Física de Campos (1996 a 2000), membro do 1º Conselho Regional de Educação Física instalado no Brasil, premiado em 01/09/03 com Discóbolo de bronze pelo Presidente da República Fernando Henrique Cardoso pelos relevantes serviços prestados a Educação Física no Estado do Rio de Janeiro.

sexta-feira, setembro 21, 2007

Resposta a artigo sobre Transporte Público em Campos

No dia 11 de maio, este blogueiro, publicou no jornal Folha da Manhã de Campos o artigo “Emut – hora de abrir caminhos” que você pode reler clicando aqui. Como consequência dele recebeu um e-mail do senhor Sérgio Belém de Morais, diretor da Viação Tamandaré Ltda. cujo texto este blog acaba de transcrever abaixo:

11/05/2007

Sr. Roberto,

"Em sua matéria da Folha da Manhã de hoje, pude sentir um misto de alívio e contrariedade.
Alívio, quanto ao que foi dito sobre a má alocação do “presidente” da EMUT e sobre o “diretor” deste órgão; é a mais pura verdade e o que vem contribuindo substancialmente para a situação em que se encontra o transporte coletivo e o trânsito neste município.

Contrariedade, quando foi dito que o transporte coletivo não é eficiente e que deveria ser municipalizado temporariamente e depois devolvido às empresas.

Ora, se esta cidade se mostra acéfala em tantos setores, sem conseguir uma gestão eficiente em nenhuma área, como atribuir mais este encargo? Acredito que a idéia de “tomar” o negócio de quem não tem culpa é uma arbitrariedade de fundo ditatorial. Mesmo porque, não se trata de incompetência dos donos, que vivem neste ramo a gerações. No caso da Viação Tamandaré, vale ressaltar que pertence a um grupo que atua neste ramo com empresas na Bahia, Grande Rio, São Paulo e Minas Gerais, com uma frota total de 900 ônibus e 2500 empregos diretos. Portanto, não acredito que sejamos incompetentes.

Necessário é esclarecer, se o senhor tem conhecimento dos problemas que assolam o transporte regular nesta cidade.

As rádios ilegais existem, em diversos bairros, pelo motivo do “mau serviço” prestado pelas legalizadas?

O jogo do bicho, os bingos ilegais, caça níqueis, existem porque as loterias são ineficazes?

A invasão de camelôs e barraquinhas de alimentos por toda a cidade, deve-se ao fato do comércio regularizado não atender bem a população?

Obviamente que alguns “espertos” descobrem filões por onde ganhar dinheiro fácil, às margens da lei e não importando a quem prejudiquem, aproveitando a desestruturação e o consentimento politiqueiro do poder concedente.

Dizer que o transporte clandestino invadiu as linhas, pelo motivo das empresas regulares prestarem um mal serviço, também é uma inverdade.

É sabido que, quem utiliza o transporte clandestino, tem parentes que utilizam gratuitamente o transporte regular, seja estudante, idoso, deficiente físico ou, o que é comum encontrarmos, passes “provisórios”, fornecidos a vontade, pela EMUT.

Nenhuma empresa de transporte coletivo gostaria de deixar a desejar no tratamento aos usuários, que diretamente financiam o nosso negócio, mesmo porque seria idiotice.

O objetivo da VIAÇÃO TAMANDARÉ LTDA, é dar um tratamento de qualidade aos usuários, valendo ressaltar que nossos funcionários constantemente fazem cursos de direção defensiva, relações humanas, etc, sendo orientados de que os usuários estão em 1º lugar.

Trabalhamos com uma das tarifas mais defasadas do país, segundo revistas especializadas, sendo que os insumos básicos que compõem nossos custos não deixam de ser reajustados periodicamente. Estamos na “terra do petróleo” e pagamos mais caro pelo diesel do que em muitas cidades do interior do país.

Nos últimos anos, tivemos uma queda enorme de usuários pagantes, pelo motivo da invasão do transporte clandestino e o aumento das gratuidades. Atualmente transportamos cerca de dez mil passageiros a menos por dia, tendo que manter a frota cumprindo os mesmos horários de sempre, salvo algumas exceções.

A título de exemplos, vejamos:
● na Linha Eldorado/Centro, a empresa atende com veículos a cada 10 minutos e 08 minutos no horário de “pico”; atualmente existem mais de 50 veículos clandestinos.
● Na linha Ururaí/Centro, atendemos com veículos a cada 12 minutos e 10 minutos no horário de “pico”; atualmente existe mais de 30 veículos clandestinos.
● Na linha Guarus/Centro, atendemos com veículos a cada 10 minutos; atualmente existe mais de 20 veiculos clandestinos.
● Na linha de Goytacazes, atendemos com veículos a cada 07 minutos; atualmente existe mais de 60 veículos clandestinos.
● Na linha Centro/Pecuária, atendemos com veículos a cada 09 minutos; atualmente existe cerca de 18 veículos clandestinos.
● Na linha Penha, atendemos com veículos a cada 09 minutos; atualmente existem 20 veículos clandestinos.
● A linha do Jardim Carioca/Centro, estava sendo atendida por 04 veículos, com intervalos de 15 minutos, mesmo assim, houve a invasão de mais de 40 veículos clandestinos, e a empresa foi obrigada a retirar três dos seus veículos para diminuir os prejuizos.
● A linha Rodoviária/Lagoa de Cima/Imbé, transporta por dia 400 passageiros de gratuidade e 80 pagantes, em um total de 450 quilômetros/dia, e muitos moradores destas localidades colocam mercadorias e caixas com peixes nos ônibus, além dos seus filhos que são estudantes e viajam gratuitamente, enquanto os mesmos viajam nos carros clandestinos para a cidade.

Nossos horários são rigorosamente controlados pelos despachantes, mas sofrem interferências constantes pela falta de fluidez do sistema viário do município, como retenções nas poucas vias de acesso, por exemplo, a Av. 28 de Março, Av. Visconde do Rio Branco (Beira Valão), Av. Rui Barbosa e BR 101 em Guarus. Independente dos problemas com as pontes, este sempre foi um martírio para quem utiliza estes caminhos em horários de tráfego intenso.

A eficácia do transporte coletivo, no tangente a liberação do fluxo viário, pode ser dimensionada por um cálculo simples; um ônibus transporta um número de passageiros equivalente ao que sete kombis ou vinte carros de passeio transportam.

“O aumento significativo do número de veículos licenciados na cidade e o uso do gás em veículos com maior tempo de uso, que antes só circulavam nos finais de semana...”; não se deve a “péssima oferta de transporte público coletivo”.

Enquanto as empresa regulares sofrem com o rigor da fiscalização e os altos tributos, os clandestinos “entopem” as ruas com VANS, KOMBIS E CARROS DE PASSEIO, sem qualquer exigências, seja segurança do veículo, treinamento dos condutores ou qualquer outro item normal, para garantia e segurança do usuário. Além de trafegarem com veículos sem pagamento de licenciamento, seguro nem multas, sem qualquer documento, ou veículos com mandado de busca e apreensão e até roubados e clonados.


Se existisse um depósito público para apreensão de veículos irregulares, com certeza as ruas estariam mais livres, mas as autoridades têm se esquivado desta atribuição, sob várias alegações absurdas. Pese ainda, que já oferecemos até local e estrutura para isto, sob forma de doação.

A PMCG não paga a verba que foi votada desde 2003 e aprovada na CÂMARA DE VEREADORES, para ajudar as empresas a custearem a gratuidade dos alunos da rede PÚBLICA.

As empresas, transportam mais de 55% de seus passageiros gratuitamente por dia, sem nenhum subsidio para compensação.

Diante desta situação, as empresas são obrigadas a demitir funcionários, atrasar o pagamento de compromissos e fica sem ter condições de fazer a renovação de frota.

Mesmo com as condições adversas, a VIAÇÃO TAMANDARÉ LTDA, se esforça ao máximo para atender bem a nossa querida população, valendo, portanto, os esclarecimentos acima, a fim de que se possa fazer jornalismo com clareza e conhecimento de causa".

Cordialmente,

Viação Tamandaré Ltda
Sérgio Belém de Morais
Diretor

quinta-feira, setembro 06, 2007

A paranóia do celular!

Prof. Vitor Augusto Longo Braz
Jornalista e profissional de Educação Física.


O mundo contemporâneo assistiu nas últimas décadas ao avanço extraordinário das tecnologias, mais precisamente da microeletrônica, campo que criou os mais sofisticados aparelhos. Diante desta nova realidade, a área de comunicação ampliou suas possibilidades, através da mídia eletrônica que, com seu poder de penetração, tem não somente influenciado mentalidades, como também formado novos valores e relações sociais.

O setor de comunicação, ao incorporar as novas tecnologias, mais especificamente há cerca de três décadas, tornou-se um setor que revolucionou, em todo o planeta, praticamente todas as áreas de atividades, envolvendo economia, política, cultura, a própria organização do tecido social e das relações, além de uma mudança radical de como utilizamos o principal recurso não-renovável, o curto tempo da nossa vida.

“A comunicação não se resume mais no conjunto de instrumentos técnicos que ajudam a conectividade dos seres humanos, ou numa disciplina para especialistas da área. Tornou-se um gigantesco aglomerado onde telefonia (voz), televisão (imagem) e informática (informação) se articulam para formar o que Denis de Moraes chama de infotelecomunicação, presente na lição de casa das nossas crianças, nas escolhas dos produtos do supermercado, nas nossas horas de lazer, na forma de organizarmos o nosso trabalho, no conhecimento que o Estado e empresas tem das nossas atividades, na maneira e no horário de um bombardeio de uma guerra, além da forma como as próprias bombas são guiadas. De certa forma, não podemos evitar ver o óbvio: este conjunto de atividades se agigantou de maneira fenomenal, adquirindo papel absolutamente central nas atividades humanas em modo geral. O que está mudando não é a comunicação, é a sociedade. E a comunicação desempenha um papel-chave nessa transformação. Não é apenas uma área, ou um setor de atividades: [e uma dimensão de todos setores, um vetor intensamente ramificado de transformação social.” (DOWBOR, 2000, p. 7)
[1]

Talvez em nenhuma outra época de nossa história o setor de comunicação tivesse tanta importância para a humanidade como no mundo atual. As profundas e abrangentes mudanças nos mais diversos ângulos do tecido social têm suscitado em um grande número de teóricos da atualidade, concernentes ou não à área de comunicação, denominação para contemplar o contemporâneo: a “Era das Comunicações”.

No que diz respeito às denominações dentro desta conexão da comunicação com a sociedade contemporânea, conforme comenta Antonio RUBIM, (2000, p. 79) em breve revisão acerca desse tempo comunicacional, marcado pelas tecnologias, as expressões múltiplas traduzem as novas realidades: “‘aldeia global’ (Mc Luhan), ‘era da informação’ ou ‘sociedade em rede’ (Manoel Castells), ‘sociedade informática’ (Adam Scahaff), ‘sociedade da informação’ (David Lyon, Krishan Kumar, dentre outros), ‘sociedade conquistada pela comunicação’ (Bernad Miégi), ‘sociedade da comunicação’ ou ‘sociedade dos mass média’ (Gianni Vattimo), ‘sociedade da informação ou da comunicação’ (Ismar de Oliveira Soares), ‘sociedade média-centric’ (Venício Artur de Lima), ‘capitalismo de informação’ (F. Jamesson), ‘planeta mídia’(Denis de Moraes). Todas essas denominações,entre muitas outras possíveis, têm sido insistentemente evocadas para dizer o contemporâneo.” .

Com o advento das novas tecnologias da comunicação e informação, nossa sociedade vive, hoje, num mundo sem o pleno sentido de nação, pois a referência geográfica já não tem grande valor. O que se observa é um mundo desterritoralizado, global, pluralizado culturalmente e com identidades fragmentadas. Vivemos, como muitos teóricos da comunicação intitulam, numa “aldeia global”, onde estamos ou podemos estar, em qualquer parte do universo, num só momento, a partir de um mesmo local. É o que se chama “Cyberespaço”, numa linguagem cibernética que faz referência ao espaço simbólico criado pela Internet e ao princípio da ubiqüidade.

Thompson
[2] (2002, p. 77), ao se referir às novas formas de interação criadas pelo desenvolvimento dos meios de comunicação, ressalta:

“O desenvolvimento dos meios de comunicação não somente criou novas formas de interação, mas também fez surgir novos tipos de ação que tem características e conseqüências bem distintas. A característica mais geral destes novos tipos de ação é que eles são responsivos e orientados a ações ou pessoas que se situam em contextos espaciais (e talvez também temporais) remotos. Em outras palavras, o desenvolvimento dos meios de comunicação fez surgir novos tipos de ‘ação à distância` que se tornaram cada vez mais comum no mundo moderno. Enquanto nas mais antigas sociedades as ações e suas conseqüências eram geralmente restritas aos contextos de interação face a face e as suas circunvizinhanças, hoje é comum ver os indivíduos orientarem suas ações para outros que não compartilham o mesmo ambiente espaço-temporal, e com conseqüências que ultrapassam de muito os limites de seus contextos e localizações.”

Essas transformações decorrentes das tecnologias de última geração acabaram por alterar o estatuto da ética, de forma jamais vista ao longo da história, pois se antes a ética era a representação moral da espécie, algo visto como uma dádiva divina presente na condição ontológica “ser humano”, hoje, a tecnologia aponta para mil e uma possibilidades que alteram tal visão.

Nesse contexto atual, no qual a tecnologia tem papel preponderante, a invasão da privacidade alheia, tem sido como uma aquisição positiva, sobretudo sob o ponto de vista político-policial, os limites são derrubados e o sujeito é tomado por um poder e uma sensação de controle sobre o seu mundo, até bem pouco tempo inimaginável. Há um sentimento de que tudo é possível diante de tecnologias que prometem o controle de todos os atos e desejos dos indivíduos.

Assim, mesmo que não se possa retirar o aspecto positivo dos avanços no campo da tecnociência, principalmente no que se refere, aos cuidados com o seu uso, hoje bem maiores em razão do aprimoramento dos equipamentos que permitem inclusive, visualizar o interior do cérebro e de outros órgãos, promover uma medicina preventiva e/ou predicativa, está ao alcance de todos.

A tecnologia é um dos fatores de subjetivação contemporânea, porque penetra na vida dos sujeitos sociais como algo naturalizado, visto que os novos cenários a consideram como parte da vida humana. Ninguém se imagina mais, no mundo ocidental, sem um aparelho de televisão, sem um aparelho de CD, sem um telefone. Essas ferramentas tecnológicas já fazem parte da vida dos homens, banalizadas pelo uso e, cada vez mais exigindo inovações, pois o mercado competitivo e as características do espaço-tempo pós-moderno, acabam por tornar o novo de hoje, no obsoleto de amanhã.

Com base em uma visão crítico-reflexiva dos poderes adquiridos pelos homens diante da presença maquínica em suas vidas, o que se percebe é a presença de um individualismo novo, espécie de cuidado contemporâneo, que alimenta socialmente os sujeitos, conferindo-lhes a auto-segurança necessária para a aceitação nos grupos em que circulam. Essa espécie de autocuidado muitas vezes ocorre de forma inconsciente, no processo pulsional de vida e morte, na dialética entre o “eu” e os “outros”, o “particular” e o “geral”.

Assim é importante, compreender que o poder de controle sobre o indivíduo, é um aspecto cultivado pelas mídias, que por meio de tecnologias sofisticadas, de certa forma, traduzem o drama, ou as tramas, do ser humano, principalmente no que diz respeito a sua ética e valores interiores.

Hoje, a tecnologia dita o tempo humano através de diferentes registros e o homem depende cada vez mais das ferramentas tecnológicas para garantir o espaço-tempo do movimento do mundo globalizado. O “glocal”, conceito cada vez mais presente nas mídias, coloca o homem de determinado lugar em todos os lugares, uma vez que pelas redes comunicacionais, ele é visto, ouvido e inserido virtualmente em qualquer parte do mundo.

Faço esse longo preâmbulo, embasado em autores teóricos, que tive a oportunidade de ler e estudar, durante o mestrado que conclui em Comunicação e Cultura, pela UFRJ, para chegar finalmente ao assunto, que tem como título esse artigo: “A paranóia do celular”.

Nessa esteira de avanços tecnológicos, órgãos públicos de controle, fiscalização e investigação policial, tem-se utilizado com enorme freqüência da tecnociência para desvendar falcatruas políticas e desvendar crimes diversos. Falar ao celular, hoje, tornou-se, para muitos, uma desconfiança da invasão de sua privacidade, a ponto de deixar paranóicos muitos administradores e gestores da coisa pública. Grampos telefônicos é o que mais se assiste nos telejornais, como instrumento policial e político, no combate a criminalidade e corrupção existente, tanto nos guetos marginalizados, quanto nas repartições públicas diversas, de âmbito federal, estadual e municipal.

Há poucos dias, tive uma ingrata tristeza, ao ligar para um gestor público para falar de um assunto pertinente a sua pasta, na verdade apresentar sugestão e idéias, e o que ouvi desse gestor foi uma grosseria, demandada pelo seu pavor, medo, desconfiança, sei lá o que. O meu interlocutor encurtou de imediato a conversa, alegando que não poderia tratar daquele assunto via celular. Fiquei chateado, pois ao meu ver a tecnologia, no caso o telefone celular, foi criado para facilitar a vida e encurtar o tempo, tão escasso nos dias atuais. Deu a entender que havia um medo, uma paranóia, do referido gestor púbico, quanto a uma possível escuta telefônica.

Minha indignação foi grande, pois o assunto da conversa, que diga-se de passagem, não aconteceu, era de seu interesse e não havia nada de indecoroso no seu contexto, apenas uma idéia e sugestão que queria apresentar a esse gestor público municipal, com objetivo de auxiliá-lo em sua tarefa.

Agindo dessa maneira com as pessoas que lhe ligam, esse gestor público, deixa a imprensão, para os que não o conhecem, de que ele está “devendo” algo, ou até agindo “indecorosamente”, de alguma forma, no trato da coisa pública. Pois, como diz o tão famoso, quanto antigo, ditado popular: “Quem não deve não teme”. Como lhe conheço, sei que sua atitude foi, apenas, de adubado cuidado, com conversas ao celular. No entanto, sua atitude foi grosseira e confesso que fiquei chateado.

Falando por mim, continuarei usando meu celular, sem medo, pois apesar de não ocupar cargo executivo em nenhuma esfera de poder, não compactuo de ações que não condizem com a ética e a moral, preceitos, que devem ser básicos de todo ser humano, principalmente àqueles que lidam com a coisa pública.

Do meu celular podem fazer quaisquer escutas, gravar quaisquer conversas, pois como disse anteriormente: QUEM NÃO DEVE NÃO TEME”!


[1] DOWBOR, Ladislau et all. Desafios da Comunicação. Petrópolis: Vozes, 2000, p. 7.
[2] THOMPSON, John B. A Mídia e a Modernidade - Uma Teoria Social da Mídia. 4ª ed., 2002, p. 77.

domingo, agosto 26, 2007

A vergonha que passei por ser campista

Prof. Vitor Augusto Longo Braz* em 06/08/06

Por ocasião da última Festa de São Salvador, padroeiro de Campos dos Goytacazes, ou seja, a festa popular máxima da nossa cidade, comemorada tradicionalmente no dia seis de agosto (este ano caiu num sábado), e que atrai os milhares de habitantes dos quatros cantos do município, tive a oportunidade de através da imprensa, ficar ciente de sua programação, que incluía, entre tantos eventos, uma parte reservada para o esporte.

Professor de Educação Física e, acima de tudo, desportista, interessei-me pela programação esportiva anunciada, que incluía remo, prova ciclística, corrida rústica e outros esportes. Como organizador de corridas rústicas, tendo organizado quase uma centena desse evento em Campos e cidades vizinhas, fui assistir ao evento de corrida de rua.

Ao chegar ao local, um pouco antes do horário previsto para o início, logo fui cercado por um grupo de corredores de São João da Barra, atletas que tradicionalmente participam deste tipo de evento em nossa cidade. No entanto, pela má divulgação da corrida, só souberam na véspera da realização da mesma. Após grande esforço em conseguir condução e apoio financeiro para participar da “Corrida de São Salvador”, esses abnegados atletas se deslocaram bem cedo da cidade vizinha para participarem da prova. Entretanto, de forma arbitrária e deselegante, foram sumariamente impedidos de participarem da corrida pelo organizador da prova, até mesmo de forma não oficial (sem concorrer à premiação e colocação), e o que é mais lamentável: não foram aceitos nem mesmo os suprimentos alimentares que serviam de inscrição para a prova e que os mesmos tinham levado.

Pela intimidade que tenho com os atletas da cidade vizinha, e a pedido deles, tentei intermedir um acordo para que os mesmos pudessem participar da corrida. Foi em vão. Nem o organizador, nem o Presidente da Fundação Municipal de Esportes, entidade promotora do evento, nem o sub gerente de esportes do município, aceitaram as inscrições dos atletas que viajaram com sacrifícios, principalmente financeiros, para abrilhantar um evento realizado pela nossa prefeitura. Ato que nenhuma razão justifica, muito menos quando o número de participantes era muito pequeno, aproximadamente 30 corredores, e que, frise-se por importância, tinha uma premiação em dinheiro para os vencedores das várias categorias, de grande atratividade.

Por amor ao esporte e carinho pelos participantes (quase todos conhecidos meus), ofereci-me ao organizador para ajudar no que fosse preciso. Como estava de moto, o organizador pediu-me que servisse de batedor (controlador do trânsito e elemento de segurança). Atendi, porém estranhei a solicitação, uma vez que, normalmente essa é uma função desempenhada pela Guarda Civil e pela Polícia Militar, que possuem experiência em controle de tráfego e, ainda mais, por se tratar de um evento oficial do município.

Nesse aspecto, posso afirmar que se não fosse um grupo de motociclistas adeptos ao esporte, aonde me incluo, muitos corredores participantes ficariam em apuros. Só no meio da prova é que dois guardas civis em motocicletas apareceram para apoiar aos participantes. No entanto, eles, os guardas batedores atrasados, não conheciam o percurso da prova, como a maioria dos corredores e eu também não. Na verdade, fomos adivinhando o trajeto.

Em momento algum, em uma prova de rua em que riscos de acidentes são eminentes, se viu o apoio de uma ambulância de pronto atendimento, fato que é obrigatório por lei.

Não havia sistema de som para anunciar absolutamente nada: as autoridades presentes, os participantes de outras cidades, os vencedores, etc. Enfim, nada se anunciava por não ter um simples sistema de som, equipamento obrigatório em qualquer evento de qualquer natureza.

Faixa de chegada não havia, o de largada foi um “já” dado pelo organizador que participava da prova como corredor.

Após a chegada dos muitos atletas de outras cidades, podendo citar: Friburgo (o vencedor), Macaé, Rio das Ostras, Pirapetinga, etc., as manifestações de insatisfação e repúdio ecoaram de forma unânime.

Mas o sofrimento desses heróis não parou por aí. A apuração dos vencedores da prova e respectivas categorias foram um martírio. Os participantes foram obrigados a ficar horas e horas num sol escaldante para se ter os resultados, que não podemos deixar de registrar, muitos com erros que geraram revoltas entre os participantes.

Bom, no final dessa triste e envergonhante competição, os vencedores foram chamados para receber suas respectivas premiações. Pasmem, não havia um pódio (recurso material básico e imprescindível em qualquer evento esportivo), um fotógrafo, não havia nada. Nenhuma valorização sequer dos atletas, que treinam várias horas por dia, vários dias por semana, várias semanas por mês e que são, ao meu ver, as maiores estrelas de qualquer evento esportivo.

Os atletas de corrida de rua são exemplo de humildade, valorizam muito mais o reconhecimento de seu esforço, do que propriamente o dinheiro da premiação. A maioria corre por amor ao esporte, fazem papel de figurantes, sabem que não vão ganhar. Mas, senão fossem esses anônimos talvez as corridas de rua não teriam brilho que possuem como evento esportivo. Para reforçar todo este relato, registre-se que sobrou dinheiro de premiação, algo em torno de seis premiações em dinheiro. Fato inédito, pelo menos para mim.

Como morador de Campos, orgulhoso e amante da cidade que possui o 16º PIB do Estado, 25ª cidade do Brasil em arrecadação de impostos, com um orçamento estimado em um bilhão de reais por ano, que é considerada a cidade pólo regional, que possui uma importância política e econômica a nível nacional, senti-me envergonhado. Uma vergonha ao ver como o esporte em Campos é atrasado, tratado com enorme descaso e, por conseqüência pouco desenvolvido.

Uma vergonha que aumenta, na medida em que vejo a pequena e pacata cidade de Macuco, situada na região serrana do nosso Estado, realizar um evento desta mesma natureza, agregando milhares de participantes e utilizando toda tecnologia disponível para que a valorização dos participantes e o sucesso do evento elevem o nome do município, atraindo investimentos, principalmente na área do turismo, gerando renda e empregos.

* Jornalista, profissional de Educação Física, ex - Presidente da Associação dos Profissionais de Educação Física de Campos (1996 a 2000).